terça-feira, 2 de novembro de 2010

Freud e a Teoria da Sedução(causas das neuroses)

A Controvérsia sobre a Sedução Infantil - Psicanálise de Freud 


    Freud não tinha nenhuma dúvida do papel determinante do sexo na neurose. Observou que a maioria das pacientes relatava traumáticas experiências sexuais vividas na infância, muitas vezes envolvendo membros da própria família.Também passou a crer que as condições neuróticas não ocorriam nas pessoas com vida sexual normal.

   Em um trabalho apresentado para a sociedade Vienense de Psiquiatria e Neurologia em 1896, Freudrelatou que, usando informações extraídas por meio da técnica da livre associação, os pacientes revelaram ter sido seduzidos na infância, e o sedutor normalmente era um parente mais velho, muitas vezes o pai. Mais tarde, Freud assegurou serem esses traumas de sedução a causa do comportamento neurótico do adulto. Eles hesitavam em descrever os detalhes das experiências de sedução vividas, como se os acontecimentos fossem de alguma forma irreais ou como se nunca houvessem ocorrido. Os pacientes titubeavam ao falar, dando a impressão de não conseguirem lembrar-se totalmente dos fatos.

   O grupo recebeu a pesquisa de Freud com ceticismo. Krafft-Ebing, presidente da Sociedade, declarou que o trabalho soava como uma "história infantil científica" (apud Jones, 1953, p. 263). Freud rebateu e afirmou que os críticos eram burros, e que fossem para o inferno. No geral, creditou-se a reação negativa ao trabalho de Freud ao choque e à fúria do público devido a afirmação sobre a grande freqüência com que ocorria o abuso sexual infantil. Um pesquisador contemporâneo de Freud apresentou argumento, de que a "oposição à afirmação da teoria da sedução fora baseada ou na crença na predominância constitutiva das bases [somáticas] dos distúrbios nervosos ou, mais comumente, com base na alegação de não serem confiáveis as descobertas obtidas por meio dos procedimentos clínicos adotados por Freud" (Esterson, 2002, p. 117-118). Qualquer que seja a explicação mais válida, o fato é que o trabalho estava muito longe do sucesso almejado por Freud.

   
Cerca de um ano depois, Freud mudou de opinião e passou a afirmar que, na maioria dos casos, as experiências de sedução infantil descritas pelos pacientes eram irreais - não haviam efetivamente ocorrido. Em princípio, Freud ficou chocado ao tomar consciência de que os pacientes relatavam fantasias e não fatos, já que sua teoria sobre a neurose estava totalmente baseada na crença dos traumas adquiridos de experiências sexuais da infância como responsáveis pelo comportamento irracional da vida adulta. No entanto, após refletir muito, Freud chegou à conclusão de que, para os pacientes, as suas fantasias eram praticamente reais. E, como envolviam sexo, o fator sexual continuava a ser feliz do problema. Com esse raciocínio, Freud manteve a noção básica do sexo como a causa da neurose.
 
   Quase um século depois, em 1984, um psicanalista com uma rápida passagem como diretora dos arquivos de Freud, Jeffrey Masson, afirmou que Freud havia mentido a respeito da realidade das experiências sexuais de infância de seus pacientes. Masson alegou que os abusos sexuais relatados pelos pacientes deFreud realmente ocorreram, e que ele decidira chamar essas seduções de fantasias com a intenção de que seu sistema fosse mais facilmente aceito entre os colegas e o público em geral (Masson, 1984). Os pesquisadores mais renomados refutaram as afirmações de Masson, alegando serem inconvenientes as evidências por ele apresentadas (veja Gay, 1988; Krüll, 1986; Malcolm, 1984). Esse debate recebeu grande cobertura da mídia americana. Em uma entrevista publicada no jornal Washington Post (19 fev. 1984), os estudiosos da vida de Freud, Paul Roazen e Peter Gay, descreveram a teoria de Masson como uma brincadeira e uma calúnia, "uma séria distorção da história da psicanálise". Devemos observar que Freudjamais abandonara a crença de que, algumas vezes, os abusos sexuais infantis realmente ocorriam; na verdade, o que ele reavaliou foi seu ponto de vista, questionando se todas aquelas experiências relatadas pelos pacientes efetivamente teriam acontecido. Freud disse ser "difícil de acreditar que tais atos pervertidos contra crianças fossem assim tão freqüentes" (Freud, 1954, p. 215-216).
 
   Mais tarde provas indicaram ser tão freqüentes os abusos sexuais contra crianças a ponto de Freud não estar preparado para admitir. Um escritor declarou que a "real ocorrência de incesto entre pai e filha é bem superior ao que a literatura no geral estaria disposta a reconhecer" (Lerman, 1986, p. 65). Essa conscientização levou alguns psicanalistas a sugerirem a aceitação do conceito original de Freud acerca da teoria da sedução como a explicação para a neurose. Não é possível afirmar com certeza se Freudpropositadamente omitira a verdade, assim como afirmou Masson, ou se realmente chegou a acreditar que os relatos dos pacientes eram fantasiosos.

   Outra razão para que Freud mudasse de opinião a respeito da teoria da sedução seria que, caso ela fosse verdadeira, todos os pais, inclusive o seu, seriam considerados culpados por atos perversos contra os filhos (Krüll,1986).

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